achego-me às tuas costas,
côncava pro convexo,
agora que o sono é o perfume
a emaranhar teus cabelos;
agora que tuas ancas se aquietam, as minhas
aconchegam-se aos teus sonhos, juntando os
arrepios que versejam, em braile, pelas páginas dos
nossos corpos: livros livres
agora que sua nuca se oferece
pr’um carinho lascivo, deixo um suspiro sonhado, e
cerro as pálpebras pra te sonhar
enroscado no círculo de meus braços...
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amor que não espera ir para a cama.
Sobre o tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo a corpo a úmida trama.
E para repousar do amor, vamos à cama.
Carlos Drummond de Andrade
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Araras versáteis. Prato de anêmonas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii...
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.
Hilda Hilst
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da rosa pluriaberta;
a língua lavra certo oculto botão,
e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe,
lambilonga,
lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente,
mais ativa,
atinge o céu do céu,
entre gemidos,
entre gritos,
balidos e rugidos de leões na floresta,
enfurecidos.
Carlos Drummond de Andrade
Desconheço a autoria da imagem
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venha embalar-se na rede
te faço cafuné
um chá
massagem
sou gueisha
venha me matar a sede
te bebo
te curo
te falo
bobagem
ah deixa!!!
venha que me ponho nua
ou me visto inteira
ou me ponho em marcha
de aventureira
e encolho o mar
e me vou de botas
Se assim me notas
eu vou navegar.
venha descansar a mente
relaxar o corpo
e gozar bem solto
que nao ponho rédea
venha se quiser
sê você meu homem
eu pra ti mulher
eu te faço cocegas
e te canto versos
eu até me calo
muda embevecida
a te olhar o falo
a te olhar os olhos
quieta paradinha
e comportadinha
que te sei cansado
que te sei enfado
e te quero tanto
para meu encanto
por voce me acabo.
estou aqui pra sempre
se quiseres venha
eu te beijo e beijo
que eu te desejo
e tambem te adoro
mesmo estando longe
é por ti que choro.
Anja Luaso
Imagem: Pierre Lord Gabeon
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Sou homem do durante. Do meio. Do decorrer. Nada contra quem pensa o contrário, mas é um pouco de soberba inaugurar ou fechar o mundo.
Quando se ama uma mulher, é preciso a safadeza, a vontade sem pudor, o desejo diabólico, a tara. Não se conter, não se represar. A ânsia, a violência e a obsessão são permitidas. Mas tudo será grosseria desacompanhada da pureza.
Pureza é autenticidade. Não fingir, não disfarçar, não dizer o que não está sentindo. Já ouvi muito que sexo não é seguir a cabeça e deixar as coisas aconteceram. Sexo seria não pensar. Não concordo, sexo não é inconseqüência, é conseqüência da gentileza. Conseqüência de ouvir o sussurro, de ser educado com o sussurro e permanecer sussurrando. Perder o pudor, não perder o respeito. Perder a timidez, não perder o cuidado.
Sexo é pensar, como que não? E fazer o corpo entender a pronúncia mais do que compreender a palavra. Como se não houvesse outra chance de ser feliz. Não a derradeira chance, e sim a chance.
Uma mulher está sempre iniciando o seu corpo. Toda a noite é um outro início. Toda a noite é um outro homem ainda que seja o mesmo. Não se transa com uma mulher pela repetição. Seu prazer não está aprendendo a ler. Seu prazer escreve - e nem sempre num idioma conhecido.
Ela pode ficar excitada com uma frase. Não é colocando de repente a mão na coxa. Ela pode ficar excitada com uma música ou com uma expressão do rosto. Não é colocando a mão na sua blusa. Mulher é hesitação, é véspera, é apuro do ouvido.
Antever que aquelas costas evoluem nas mãos como um giz de cera. Reparar que a boca incha com os beijos, que o pescoço não tem linha divisória com os seios, que a cintura é uma escada em espiral.
É comum o homem, ao encontrar sua satisfação, recorrer a uma fórmula. Depois de sucesso na intimidade, acredita que toda mulher terá igual cartografia, igual trepidação. Se mordiscar os mamilos deu certo com uma, lá vai ele tentar de novo no futuro. Se brincou de chamá-la de puta, repete a fantasia interminavelmente. Assim o homem não vê a mulher, vê as mulheres e escurece a nudez junto do quarto.
Amar não é uma regra, e sim onde a regra se quebra.
Não se come uma mulher, ela é que se devora.
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Como eu desejo a que ali vai na rua,
tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emaranhá-la nua,
bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...
Desejo errado... Se eu a tivera um dia,
toda sem véus, a carne estilizada
sob o meu corpo arfando transbordada,
nem mesmo assim – ó ânsia! – eu a teria...
Eu vibraria só agonizante
sobre o seu corpo de êxtases dourados,
se fosse aqueles seios transtornados,
se fosse aquele sexo aglutinante...
De embate ao meu amor todo me ruo,
e vejo-me em destroço até vencendo:
é que eu teria só, sentindo e sendo
aquilo que estrebucho e não possuo.
Mario de Sá Carneiro
Imagem: Bill Phelps
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Comendo na sua cama
São Paulo pela janela
Me parece tão distante
Nessa semana de romance
Passo dias no seu quarto
Sem roupa nos seus braços
Sentado no chão do box
Te devorando em baixo d'água
Morro de tédio e tristeza
Quando você vai pro trabalho
E eu fico em casa deitado
Solidão de Nosferatu
Eu quero ter seu sangue
Nos dias mais impróprios
O teu cheiro e um beijo morno
Na hora em que eu abro os olhos
Tiro férias do universo
Vivendo às suas custas
Realizo os seus desejos
Seu gigolô sem culpas
Vem se esquenta em mim, vem se encosta em mim
Nenhum outro lugar pode ser melhor que aqui
Pra te proteger, pra te ameaçar
Nenhum outro lugar pode ser melhor que aqui
Pode ser melhor que aqui
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Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza
você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa
Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa
Bruna Lombardi
Imagem: Monika Aaleocochodzi
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Sobre o amor, vida, o erotismo, sexualidade e a real importância do feminino.
0 comentários às 14:08"É uma soma de experiências existenciais que leva a uma apuração da vida. Considerar os valores existenciais da vida como realmente aquilo que você tem de mais precioso. O erotismo é um desses valores. Ninguém prescinde dele. Não há caso de pessoa que não se interesse ao erotismo, o qual as modalidades mais variadas de execução. [...] É bom saber que o mundo continua com base no amor. Não só o amor espiritual, como o físico. Porque esse amor espiritual me parece assim uma idéia filósofica demais, transcendente, que não corresponde à realidade. Eu acho que o amor é uma coisa total! Abrange tudo. Desde os sentidos ate o romantismo mais desbragado. [...] A mulher tem importância absoluta. Não como deusa, não como rainha, mas como participante da vida."
- Carlos Drummond de Andrade, aos 82 anos, em 1984.
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Uma nuca de loura e de graça inclinada,
Um colo que arrulha, belos, lascivos seios,
Com medalhões escuros na mama afogueada,
Esse busto se assenta em baixas almofadas
Enquanto entre duas pernas para o ar, vibrantes,
Uma mulher se ajoelha - ocupada com quê?
Amor o sabe - expondo aos deuses a epopéia
Singela de seu cu magnífico, um espelho
Límpido da beleza, que ali quer se ver
Pra crer. Cu feminino, que vence o viril
Serenamente - o de efebo e o infantil.
Ao cu feminino, supremo, culto e glória!
Paul Verlaine
(Tradução de José Paulo Paes)
Imagem: E. Vasilieva
)
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Pica-Flor
(Gregório de Matos)
A uma freira que satirizando
a delgada fisionomia do poeta
lhe chamou "Pica-Flor"
Se Pica-Flor me chamais,
Pica-Flor aceito ser,
Mas resta agora saber
Se no nome que me dais,
Meteis a flor que guardais
No passarinho melhor!
Se me dais este favor,
Sendo só de mim o Pica,
E o mais vosso, claro fica,
Que fico então Pica-Flor.
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Prezado coleccionador:
O sexo perde todo o seu poder, toda a sua magia, quando se torna explícito, abusivo, quando se torna mecanicamente obcecante. Passa a ser enfadonho.
Nunca conheci pessoa que melhor provasse o erro que é não se lhe juntar a emoção, a fome, o desejo, a luxúria, os caprichos, as manias, os laços pessoais, relações mais profundas, que lhe mudam a cor, o perfume, os ritmos, a intensidade.
Nem o senhor sabe o quanto perde com esse seu exame microscópico da atividade sexual e a exclusão dos outros aspectos, que são o combustível que a faz atear. Intelectual, imaginativo, romântico, emocional. Eis o que dá ao sexo as suas surpreendentes texturas, as mudanças subtis, os elementos afrodisíacos. O senhor restringe o seu mundo de sensações. Disseca-o, definha-o, tira-lhe o sangue.
Se o senhor alimentasse a sua vida sexual com todas as aventuras e excitações que o amor instila a sensualidade, seria o homem mais poderoso do mundo. A fonte da potência sexual é a curiosidade, é a paixão. O que o senhor vê é sua débil chama a morrer de asfixia. O sexo não pode medrar na monotonia. Sem invenções, humores, sentimentos, não há surpresa na cama. O sexo deve ter à mistura lágrimas, riso, palavras, promessas, cenas, ciúme, todos os condimentos do medo, viagens ao estrangeiro, novas caras, romances, historias, sonhos, fantasias, musica, dança, ópio, vinho. O que o senhor perde com esse periscópio na ponta do sexo, quando podia gozar de um harém de maravilhas várias e jamais repetidas! Não há dois cabelos iguais; mas o senhor não quer que desperdicemos palavras a descrever uns cabelos. Não há dois cheiros iguais; porém, se nós nos detemos com isso, o senhor exclama: "Suprimam a poesia." Não há duas peles de igual textura; nunca é a mesma luz, a mesma temperatura, as mesmas sombras, nunca são os mesmos gestos; porque um amante, quando animado do verdadeiro amor, é capaz de vencer séculos e séculos de ciência amorosa. Quantas mudanças de tempo, quantas variações de maturidade e de inocência, de arte e de perversidade...
Discutimos até à exaustão para saber como seria o senhor. Se fechou os sentidos à seda, à luz, à cor, ao cheiro, ao caráter, ao temperamento, deve estar nesta altura totalmente empedernido. Há tantos sentidos menores que se lançam como afluentes no rio do sexo!
Só o bater em uníssono do sexo e do coração pode provocar o êxtase.
Anaïs Nin, 1941
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teu corpo seja brasa
e o meu a casa
que se consome no fogo
um incêndio basta
pra consumar esse jogo
uma fogueira chega
para eu brincar de novo
Alice Ruiz
Imagem: Hugo Logg
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Estou doente. Taco, meu médico e amigo prescreveu champanhe
gelado. Brut. E gelo nas têmporas. E sabes por que estou doente?
Porque pressinto surpresas, notícias inquietantes, vindas não sei de
onde, talvez de ti. (E por outra coisa que já te digo.) Sinto também que
não devemos continuar com as cartas. Te vejo dissimulada, escondendo
algo muito sério. Por que não permites que eu vá até sua casa? O que
guardas aí? De alguma maneira me transformaste num escriba ou
melhor num escrevinhador, e só de saber que tu me pensas escritor
agiganta-me a náusea. Que tipos petulantes! Que nojosos! Esgruvinham
as virilhas, o pregueado, escarafuncham os sórdidos corações, as
alminhas magras, e daí enchem-se de arrotos quando terminam os
textos. Verdade que adoro os livros, mas se pudesse arrancar de mim a
visão dos estufados que os escreveram vomitaria menos o mundo e a
própria vida. Tínhamos um amigo, o Stamatius (!) (eu só o chamava de
Tiu, porque, convenhamos, Stamatius não dá) que perdeu tudo, casa e
outros bens, porque tinha mania de ser escritor. Dizem que agora vive
catando tudo quanto há, é catador de lixo, percebes? Vive num cubículo
sórdido com uma tal de Eulália que deve ter nascido no esgoto. Muitos o
procuram para ajudá-lo. Não quer nem saber. O Tiu quer escrever, só
pensa nisso, pirou, sai correndo de pânico quando vê alguém que o
conheceu. Carrega no peito uma medalha de Santa Apolônia, protetora
dos dentes. Ah, não tem mais dentes. Bonito o Stamatius. Elegante,
esguio. A última coisa que fez antes de sumir por aí foi torcer as bolotas
de um editor, fazê-lo ajoelhar-se até o cara gritar: edito sim! edito o seu
livro! com capa dura e papel bíblia! Só então largou as bolotas e
balbuciou feroz: vai editar sim, mas a biografia da tua mãe, aquela
findinga, aquela léia, aquela moruxaba, aquela rabaceira escrachada
que fodeu com o jumento do teu pai - e quebrou-lhe os dentes com a
muqueta mais acertada que já vi. Quebrou a mão também. Bem, mas
isso não vem ao caso. Ao caso pior: o Kraus morreu. A Cuzinho num
acesso de indignação não só a cause do apelido mas desesperada com
todas as indignidades vindas do Tom, invadiu a casa do Kraus com o
linguão de fora, e alguns dizem que o perseguiu pela casa inteira uma
boa meia hora, escobilhando a comprida. Consta que o Kraus tapava o
aro morrendo de rir literalmente. E acreditas? Morreu. O Tom quer
provar homicídio, quer o testemunho de todos os amigos e dos
terapeutas também, mas quem é que vai acreditar que um cara morreu
de rir só com a ameaça de lhe lamberem o botão? A turma do pólo está
estudando um plano, alguma nefanda crueldade para Amanda. Dizem
que vão lhe enfiar algumas bolas de pólo polpas e pombinha adentro. Se
assim for resolvido manda-me os tocos dos tais ficheiros. Haja bola!
Tom foi medicado na hora do enterro de Kraus porque não suportou ver
o amigo morto e ainda sorrindo. Estou doente por tudo isso e porque
não posso pensar na morte, nem na minha nem na do Kraus nem da
barata, tenho medo da pestilenta senhora e imagino-me puxando-lhe o
grelo, esticando-lhe os pentelhos até ouvir sons tensos arrepiantes. Hoje
gritei demente: vem, Madama, vem, e irado, numa arrancada, soltei da
pestilenta grelo e pentelhos e eles esbateram-se frenéticos nos seus
baixos meios. Se pudesse seduzir a morte, lamber-lhe as axilas, os pêlos
pretos, babar no seu umbigo, enturpir-lhe as narinas de hálitos
melosos, e dizer-lhe: sou eu, gança, sou eu, mariposa, sou Karl, esse
que há de te chupar eternamente a borboleta se tu lhe permitires longa
vida na olorosa quirica do planeta.
Ciao, irmanita.
(Cartas de um sedutor - SP: Paulicéia, 1991.)
Casa do Sol
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Ela era gorda e miúda.
Tinha pezinhos redondos.
A cona era peluda
Igual à mão de um mono.
Alegrinha e vivaz
Feito andorinha
Às tardes vestia-se
Como um rapaz
Para enganar mocinhas.
Chamavam-lhe "Filó, a lésbica fadinha".
Em tudo que tocava
Deixava sua marca registrada:
Uma estrelinha cor de maravilha
Fúcsia, bordô
Ninguém sabia o nome daquela cô.
Metia o dedo
Em todas as xerecas: loiras, pretas
Dizia-se até...
Que escarafunchava bonecas.
Bulia, beliscava
Como quem sabia
O que um dedo faz
Desde que nascia.
Mas à noite... quando dormia...
Peidava, rugia... e...
Nascia-lhe um bastão grosso
De início igual a um caroço
Depois...
Ia estufando, crescendo
E virava um troço
Lilás
Fúcsia
Bordô
Ninguém sabia a cô do troço
Da Fadinha Filô.
Faziam fila na Vila.
Falada "Vila do Troço".
Famosa nas Oropa
Oiapoc ao Chuí
Todo mundo tomava
Um bastão no oiti.
Era um gozo gozoso
Trevoso, gostoso
Um arrepião nos meio!
Mocinhas, marmanjões
Ressecadas velhinhas
Todo mundo gemia e chorava
De pura alegria
Na Vila do Troço.
Até que um belo dia...
Um cara troncudão
Com focinho de tira
De beiço bordô, fúcsia ou maravilha
(ninguém sabia o nome daquela cô)
Seqüestrou Fadinha
E foi morar na Ilha.
Nem barco, nem ponte
O troncudão nadando feito rinoceronte
Carregava Fadinha.
De pernas abertas
Nas costas do gigante
Pela primeira vez
Na sua vidinha
Filó estrebuchava
Revirando os óinho
Enquanto veloz veloz
O troncudão nadava.
A Vila do Troço
Ficou triste, vazia
Sorumbática, tétrica
Pois nunca mais se viu
Filó, a Fadinha lésbica
Que à noite virava fera
E peidava e rugia
E nascia-lhe um troço
Fúcsia
Lilás
Maravilha
Bordô
Até hoje ninguém conhece
O nome daquela cô.
E nunca mais se viu
Alguém-Fantasia
Que deixava uma estrela
Em tudo que tocava
E um rombo na bunda
De quem se apaixonava.
Moral da estória, em relação à Fadinha:
Quando menos se espera, tudo reverbera.
Moral da estória, em relação ao morador
da Vila do Troço:
Não acredite em Fadinhas.
Muito menos com cacete.
Ou somem feito andorinhas
Ou te deixam cacoetes.
Hilda Hilst ( Bufólicas - 1992)
Ilustração: Jaguar
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Quão belos são os teus pés
nas sandálias que trazes, ó filha de príncipe!
As colunas das tuas pernas são como anéis
trabalhados por mãos de artista.
o teu umbigo é uma taça arredondada,
que nunca está desprovida de vinho.
O teu ventre é como um monte de trigo
cercado de lírios.
Os teus dois seios são como dois filhinhos
gêmeos duma gazela.
O teu pescoço é como uma torre de marfim.
Os teus olhos são como as piscinas de Hesebon,
que estão situadas junto da porta de Bat-Rabim.
O teu nariz é como a torre do Líbano,
que olha para Damasco.
A tua cabeça levanta-se como o monte Carmelo;
os cabelos da tua cabeça são como a púrpura
um rei ficou preso às suas madeixas.
Quão formosa e encantadora és,
meu amor, minhas delícias!
A tua figura é semelhante a uma palmeira.
Eu disse. Subirei à palmeira,
e colherei os seus frutos.
Os teus seios serão, para mim, como cachos de uvas,
e o perfume da tua boca como o das maçãs.
Salomão
(retiarado da Bíblia, Velho Testamento)
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Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
? Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!
Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.
Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
? Mais abaixo, meu bem! ? num frenesi.
No seu ventre pousei a minha boca,
? Mais abaixo, meu bem! ? disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci...
Olavo Bilac
Imagem: Graham Dean
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Na sombra cúmplice do quarto,
Ao contacto das minhas mãos lentas
A substância da tua carne
Era a mesma que a do silêncio.
Do silêncio musical, cheio
De sentido místico e grave,
Ferindo a alma de um enleio
Mortalmente agudo e suave.
Ah, tão suave e tão agudo!
Parecia que a morte vinha…
Era o silêncio que diz tudo
O que a intuição mal advinha.
É o silêncio da tua carne.
da tua carne de âmbar, nua,
Quase a espiritualizar-se
Na aspiração de mais ternura.
Manuel Bandeira - (1886-1968)
Imagem: lg Alecu Grigore
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Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro !
Quem goza o prazer de te escutar ,
quem vê , às vezes , teu doce sorriso .
Nem os deuses felizes o podem igualar .
Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne , ó suave bem querida ,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.
Uma nuvem confusa me enevoa o olhar .
Não ouço mais . Eu caio num langor supremo ;
E pálida e perdida e febril e sem ar ,
um frêmito me abala ... eu quase morro ... eu tremo.
Tradução : Décio Pignatari
Imagem: . Safo em Leucádia.
Pierre Narcisse Guerin. Museu Hermitage,
São Petsburgo, Século XIX.
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